É o segredo mais bem guardado de cada edição dos Jogos Olímpicos, a surpresa mais aguardada da cerimônia de abertura: quem vai acender a pira olímpica no dia 5 de agosto, no Maracanã? Nós, do Bikpek, explicaremos a seguir por que consideramos Aída dos Santos a melhor escolha.

Aida dos Santos sorrindo nos tempos de atleta

Reprodução

O sorriso de Aida dos Santos nos tempos em que era atleta: uma heroína do esporte brasileiro e na vida

Não se trata de fazer uma aposta ou tentar adivinhar quem será a pessoa escolhida, mas de apresentar uma ideia. Aída, na beleza de seus 79 anos, representa ao mesmo tempo mulheres, negros e pobres, uma ex-atleta que morou em uma favela durante 32 anos. Ela é o retrato de parcelas da população que ainda necessitam de representatividade, que enfrentam discriminação e lutam pelo que deveria ser básico: inclusão social e igualdade.

Aída nasceu e cresceu no Morro do Arroz, em Niterói, no Rio de Janeiro, e competiu em duas edições dos Jogos: em Tóquio 1964 chegou perto do pódio com um histórico quarto lugar no salto em altura, resultado que durante 32 anos foi o melhor entre as mulheres brasileiras. Quatro anos depois, na Cidade do México, participou do pentatlo, prova que reunia cinco eventos do atletismo. Volte cinco décadas no tempo e imagine a dificuldade que uma mulher negra e pobre enfrentou para defender o Brasil.

Desprezada, lesionada e sem roupa adequada, Aída quase foi a primeira brasileira medalhista olímpica

Os obstáculos enfrentados por Aída começaram quando decidiu dedicar-se ao esporte mesmo tendo oposição dentro de casa. Depois da primeira competição que disputou, Aída apanhou do pai. Ouvia dele que “pobre tem de ganhar a vida, e você não ganhou nada pra fazer isso”. Contou ao UOL que na escola enfrentava o racismo até de uma professora que lhe chamava de crioula beiçuda. Mas as adversidades lhe tornaram mais forte e poderosa.

Aída jamais desistiu. Enfrentou até o descaso e piadas dos dirigentes brasileiros. Em Tóquio, não teve um intérprete, não teve sequer uniforme da delegação, usou um antigo e nos treinos vestia uniforme do Botafogo, seu clube. Quando saiu para competir, ouviu de um deles “te encontro no almoço, Aída”. Dizia claramente que ela não passaria às finais, disputadas à tarde, e portanto voltaria para almoçar com o restante da delegação.

Aída dos Santos saltando

Reprodução/Revista Manchete

Aída dos Santos, a maior atleta olímpica brasileira do salto em altura: mesmo sem medalha, ela venceu

Aída passou às finais do salto em altura, competindo com uma sapatilha própria para corrida, não para sua prova, que foi doada por um patrocinador do evento sensibilizado com a situação da brasileira. Depois de se lesionar nas eliminatórias, foi ajudada por um médico cubano e competiu machucada na final. Saltou 1,74 m e chegou a liderar a prova, que terminou com recorde olímpico e bicampeonato da romena Iolanda Balas. “Foi muita maldade o que o Brasil fez comigo. Brasil, não. Os dirigentes do Brasil”, disse no filme “Aída dos Santos, uma Mulher de Garra” (2013), de André Pupo (disponível no site da ESPN).

Depois do feito em Tóquio, dispensou o caminhão do Corpo de Bombeiros que lhe esperava na volta a Niterói. “Não me ajudaram quando eu precisava”, disse ao jornal “O Globo”. Mesmo após o resultado histórico, ainda precisou fazer faxina para sobreviver. Depois do 20° lugar no pentatlo em 1968, a trajetória olímpica terminou por causa de uma entrevista, que lhe tirou a chance de ir a Munique, em 1972. “Confirmei as condições que tive em Tóquio e no dia seguinte fui informada que estava fora do grupo olímpico”.

'Eu consegui muita coisa no esporte, mas teria conseguido ainda mais se não fosse negra'

Os três filhos de Aída foram colocados na vida esportiva desde cedo. E uma delas deu à mãe um presente: Valeskinha conquistou com a seleção de vôlei a medalha de ouro em Pequim 2008, 44 anos depois da glória que Aída alcançou de forma solitária.

A ex-atleta foi homenageada pelo COB (Comitê Olímpico do Brasil) em 2006 com o prêmio Adhemar Ferreira da Silva. Prêmio maior, porém, receberá se couber a ela a tarefa de colocar o fogo olímpico na pira que estará no Maracanã dia 5 de agosto. Aída merece. Pelas suas conquistas pessoais e para que uma sociedade mais justa se sinta representada.

Cathy Freeman acende a pira olímpica em Sydney 2000

Arquivo/COI

Desde que a cerimônia foi criada, nos Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim, apenas quatro vezes mulheres receberam a honra de acender a pira olímpica. E apenas duas vezes foi uma mulher sozinha – nas outras duas estavam acompanhadas de um ou mais homens. Em 1968, na Cidade do México, a escolhida foi Enriqueta Basilio, do atletismo. Em Sydney 2000, foi a vez de Cathy Freeman (foto ao lado), que naqueles Jogos conquistaria a medalha de ouro dos 400 metros rasos – já havia conseguido a prata quatro anos antes, em Atlanta 1996.

Bikpek

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