Arquivo/COI

Prova do cabo de guerra durante as Olimpíadas de St. Louis, em 1904

Acredite se quiser, mas uma modalidade conhecida como uma brincadeira de criança foi durante um bom tempo um dos destaques do programa esportivo das Olimpíadas. Durante cinco edições dos Jogos – Paris 1900, St. Louis 1904, Londres 1908, Estocolmo 1912 e Antuérpia 1920 -, o cabo de guerra esteve firme na disputa por medalhas e só saiu por causa do crescimento do evento. E olhe que recentemente a modalidade ensaiou um movimento para tentar retornar ao universo olímpico.

Este esporte que passa a imagem de ser apenas uma gostosa recreação tem na verdade uma origem milenar. Registros apontam que as primeiras manifestações do cabo de guerra aconteceram em cerimônias religiosas realizadas pelos egípcios, isso há quatro mil anos. Pesquisadores também descobriram eventos semelhantes na civilização grega e em tribos na Ásia e nas Américas. Nestas ocasiões, o objetivo era o de determinar o grupo que era o mais forte e poderoso, criando uma batalha espiritual entre o bem e o mal.

De cerimônia religiosa, o cabo de guerra foi evoluindo para tornar-se uma modalidade esportiva bastante popular ao final do século 19. Coincidentemente, o mesmo período em que o francês Pierre de Coubertin estava lutando para recriar os Jogos Olímpicos da Grécia Antiga. Todo este contexto foi perfeito para que o cabo de guerra acabasse sendo reconhecido como um esporte olímpico, integrando o programa esportivo da segunda edição dos Jogos, em Paris 1900.

Na ocasião, o “Tug-of-War” – nome em inglês para o cabo de guerra, derivado de uma antiga expressão alemã chamada Tiger Beer – contou com apenas duas equipes participantes. A medalha de ouro, na ocasião, ficou com uma equipe mista formada por atletas da Suécia e Dinamarca, que derrotou a equipe da França na disputa pelo ouro.

Em sua curta história olímpica, o cabo de guerra era disputado por equipes compostas de cinco a oito atletas. Enquadrado no programa de provas do atletismo, seu objetivo é que uma equipe consiga arrastar a outra até ultrapassar uma área demarcada por um lenço, no meio de uma pista retangular. Uma das primeiras modalidades coletivas em Olimpíadas, o cabo de guerra atraia atenção de muita gente. Nas arquibancadas dos Jogos de Londres, centenas de pessoas acompanhavam as disputas.

Em sua curta vida olímpica, o cabo de guerra fazia parte do programa de provas do atletismo, com equipes que tinham de cinco a oito atletas

Mas mesmo o sucesso de público não serviu para prolongar a presença do cabo de guerra no programa olímpico por muito tempo. Parte disso aconteceu até pela verdadeira bagunça e excesso de informalidade que imperava naqueles primeiros tempos dos Jogos Olímpicos recriados por Coubertin. Na edição de Londres 1908, por exemplo, três equipes britânicas dividiram as medalhas de ouro, prata e bronze.

O detalhe é que estas equipes eram na verdade times formados em distritos policiais de Londres e Liverpool, fato que chegou a ocasionar protestos da equipe dos Estados Unidos, especialmente em razão do tipo de calçado usados pelos policiais de Liverpool, alegando que o tamanho estava fora dos padrões e usando pregos que favoreciam os atletas na hora de apoiar para puxar os rivais. O protesto não foi aceito e os americanos acabaram eliminados da competição ainda na primeira fase.

A despedida olímpica do cabo de guerra ocorreu em Antuérpia 1920, na Bélgica. Os inúmeros problemas com equipes mistas ou que não eram as legítimas representantes nacionais nas competições, além de informações desencontradas nos resultados finais de várias provas, dificultando saber quem de fato havia vencido determinada disputa, levaram o COI a excluir a modalidade para a edição seguinte, em Paris 1924.

A exclusão das Olimpíadas não significou a morte do cabo de guerra, muito pelo contrário. A modalidade prosseguiu com sua popularidade no âmbito escolar, por se tratar de uma excelente atividade física em grupo. Mas os praticantes do esporte queriam bem mais, e em 1960 fundaram a Federação Internacional de Cabo de Guerra (TWIF, na sigla em inglês), realizando desde então as edições de seus campeonatos mundiais regularmente a cada dois anos.

Arquivo/IWGA

Atualmente, o cabo de guerra integra o programa dos Jogos Mundiais (World Games)

O sonho de retornar aos Jogos Olímpicos, porém, voltou com tudo em 2014. Entre uma série de mudanças que foram propostas pelo COI (Comitê Olímpico Internacional), com o objetivo de modernizar as Olimpíadas (verão e inverno) e torna-lo mais atraente às possíveis cidades-sedes, abriu-se a possibilidade de incluir novas modalidades no programa esportivo.

Como isso não seria possível para o Rio 2016, diversas modalidades viram como chance de ouro garantir um lugar nas Olimpíadas de Tóquio 2020. Em junho, uma lista de 26 modalidades foi feita pelos organizadores japoneses e o cabo de guerra estava entre elas. Poucas semanas depois, após uma análise das propostas das respectivas federações, a lista caiu para 15 e o cabo de guerra mais uma vez foi excluído.

Como prêmio de consolação, a modalidade segue cada vez mais ativa nos Jogos Mundiais, competição patrocinada pelo próprio COI e que é voltada para modalidades que não tem lugar no programa olímpico, como caratê, escalada esportiva, esqui aquático e patinação artística (sobre rodas), entre outros. Não é muita coisa, mas serve para manter entre os praticantes do cabo de guerra um certo glamour olímpico.

No vídeo acima, saiba mais como funciona a disputa de uma prova de cabo de guerra (em inglês)

Marcelo Laguna

Marcelo Laguna

Editor

Marcelo Laguna é jornalista especializado em esportes e cobre Olimpíadas desde 1984 - foi como enviado especial em Atlanta 1996, Sydney 2000, Londres 2012 e Rio 2016. É um dos cofundadores do Bikpek e crê que um dia o Brasil deixará de ter uma monocultura esportiva.

search-sample