Houve um tempo, e não faz muito, em que o Brasil, lá embaixo no quadro de medalhas, olhava com admiração e certa inveja para a posição de Cuba, que ocupava colocação bem mais acima. Voltemos a 1992. Nos Jogos  Olímpicos de Barcelona, foram apenas dois ouros e uma prata dos brasileiros, contra 14 ouros, seis pratas e 11 bronzes cubanos.

Mas a União Soviética havia chegado ao fim no ano anterior, e, consequentemente, acabou o repasse de recursos a Cuba. No Brasil, o esporte passou a receber verbas que foram proporcionadas pela Lei Piva, de 2001, que direciona via COB (Comitê Olímpico do Brasil) e confederações um percentual do dinheiro arrecadado pelas loterias. Os fatores somados foram determinantes para a redução da diferença de desempenho entre as nações.

O pugilista Félix Savón no pódio em Sydney 2000

Arquivo/COI

O pugilista Félix Savón no topo do pódio em Sydney 2000: era o terceiro ouro consecutivo do cubano

A discrepância de investimento e a estruturação do esporte ajudaram o Brasil a terminar à frente de Cuba nos Jogos Pan-Americanos de 2015, em Toronto. Foram 141 medalhas (41 ouros, 40 pratas e 60 bronzes), contra 97 dos cubanos (36, 27, 34). Brasileiros não terminavam um Pan à frente dos atletas da Ilha havia 48 anos.

Com a destituição de Fulgêncio Batista no dia 1º de janeiro de 1959, os cubanos não demoraram a oferecer à população o esporte, visto, corretamente, como parceiro para melhorar a saúde na Ilha. Logo valorizou-se o papel que as conquistas esportivas poderiam exercer no fortalecimento da autoestima, para ajudar o cubano a gostar de ser cubano, a gostar do regime e defendê-lo. Era também uma boa propaganda para o mundo.

Esporte melhorou a saúde do povo cubano e foi usado como propaganda dentro e fora do país

A formulação de uma política esportiva nacional, que coordena a garimpagem, formação, seleção e treinamento de atletas de alto nível foi, assim, um passo lógico. O que explica o fato de que, ainda que os números de Cuba em grandes competições mostrem uma queda importante – em Londres 2012 o país conquistou 15 medalhas, menos da metade de 20 anos antes – ainda existam cubanos por trás do sucesso de vários atletas de outras nacionalidades, incluindo brasileiros.

Fernando Reis, único brasileiro a conquistar uma medalha de ouro no levantamento de peso no Pan de Toronto (categoria mais de 105 kg), tem como técnico Luis Lopez, cubano que orientou seu pupilo a ganhar 40 quilos em dois anos. O passo seguinte foi tentar transformar boa parte desta massa em músculos. Lopez não descobriu a pólvora: estudou, e muito, antes de orientar o antes mais esbelto Reis.

Pista de atletismo em Cuba

Flickr/Joshua Adelman

Pista de atletismo em Cuba: simplicidade de instalações esportivas de um país que luta para ficar no topo

E há diversos outros exemplos. Como o da colombiana Caterine Ibargüen, bicampeã mundial e vice-campeã olímpica do salto triplo, que tem suporte de Ubaldo Duany, que foi por anos dono da cátedra da Escola de Aperfeiçoamento Atlético de Havana. Foi ele quem convenceu a atleta a deixar o salto em altura de lado e se dedicar ao salto triplo, prova em que se tornou uma das melhores do planeta.

É por ter erguido este conhecimento esportivo, que muito se beneficiou do intercâmbio com os países da antiga Cortina de Ferro, que Cuba pode desenvolver o talento e orientar corretamente um homem chamado Caballo: o corredor Alberto Juantorena, campeão olímpico dos 400 m e dos 800 m em Montreal 1976.

Cuba é um país pobre em recursos financeiros e em equipamentos esportivos. Há duas pistas de atletismo certificadas pela Iaaf (Associação Internacional das Federações de Atletismo) nos 111 mil quilômetros quadrados de seu território, pouco maior que o estado de Pernambuco. Juantorena treinava no gramado do Parque Lênin e no antigo Golf Club de Havana. Herdou orientações da forte escola polonesa de meio-fundo, reprocessadas por professores de educação física da Ciudad de las Columnas.

Brasileiro Fernando Reis, do levantamento de peso

Saulo Cruz/Exemplus/COB

O brasileiro Fernando Reis, orientado por técnico cubano, levou o ouro no Pan de 2015, em Toronto

As dificuldades econômicas são parte da explicação da queda do país nos quadros de medalhas olímpicos. A Cuba pós-revolucão gosta de alardear a qualidade de sua educação, de seus médicos, de seu esporte. O desmantelamento da União Soviética golpeou profundamente a economia da Ilha. As engrenagens do ordenamento econômico cubano eram movidas, no período em que orbitava um sistema que tinha Moscou como sol, pelo açúcar. Cuba chegou a ter um ministro do Açúcar.

Os ‘camaradas’ de Moscou generosamente se comprometiam a comprar uma parte da enorme produção cubana daquele tesouro branco. Em 1990, último ano do arranjo, Cuba recebeu US$ 4,8 bilhões para adoçar a vida dos soviéticos. Em 2002, toda a produção cubana, exportada e pulverizada por vários mercados, arrecadou US$ 500 milhões, cerca de 10% do que ganhava no início da década anterior.

O Pan-Americano de Havana, em 1991, foi a afirmação esportiva de Cuba, uma vez que o país nunca pôde receber os Jogos Olímpicos. Tendo como ícone Javier Sotomayor, até hoje recordista mundial do salto em altura, os anfitriões alcançaram o topo do quadro de medalhas. Economicamente, em contraste com esta glória, a Ilha entrava no que se chamou de “período especial”, eufemismo criado para designar a era em que Cuba, sem o apoio soviético, teria que caminhar por suas próprias pernas.

O fim da União Soviética, maior 'patrocinadora' de Cuba, provocou grave crise no esporte do país

Cuba passou a concentrar investimentos em esportes que poderiam lhe dar mais retorno em medalhas. Sua seleção masculina de handebol se classificara, na quadra, para disputar os Jogos Olímpicos de 1996, em Atlanta. Porém, ciente de que alcançar um dos degraus do pódio era uma utopia, diante do maior poderio das equipes europeias, os dirigentes cubanos abriram mão da vaga, herdada pelo Brasil, para economizar.

Os treinadores qualificados, o esporte enraizado nas escolas, a estrutura piramidal, que vai alçando os jovens mais qualificados aos centros nacionais de treinamento, tudo continua. Mas o dinheiro para intercâmbio, para enviar judocas para lutar na Europa, por exemplo, escasseia.

Cuba criou fontes alternativas de renda. O turismo é fomentado, e o gramado do clube de golfe que recebia as elegantes passadas de Juantorena voltou a receber golfistas estrangeiros, com suas carteiras recheadas de dinheiro. Outra fonte de renda é a exportação de treinadores por meio de uma empresa chamada Cuba Deportes. Parte deles foi despachada à Venezuela de Chávez, grande parceiro de Fidel. Os venezuelanos receberam também médicos. Em troca, Cuba recebeu petróleo.

O cubano Alberto Juantorena (217) vence os 800 m rasos em Montreal 1976

Arquivo/COI

O cubano Alberto Juantorena (217) vence os 800 m em Montreal 1976 e quebra o recorde mundial

Mas nem todos os atletas cubanos estão dispostos a conviver por anos a fio com as limitações impostas por um regime espartano. A exemplo de Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, boxeadores de alto nível que aproveitaram brechas para abandonar Cuba durante o Pan-Americano do Rio, em 2007, outros atletas também seguiram o sorriso sedutor do capitalismo.

Dennis, Gato, Marshall, Juantorena. Este Juantorena não é o “Caballo”. O primeiro nome desse atleta não é Alberto, mas Osmany. Integra o quarteto de dissidentes que defendia a seleção cubana de vôlei, e que prometia oferecer a ela um grande futuro de conquistas. Aproveitaram um vacilo dos olhos que os vigiavam durante viagem à Bélgica. Osmany vai colocar seus 2 metros de altura e a força de seus ataques, que lhe renderam o apelido O Martelo de Trento a serviço da Itália nos Jogos do Rio.

Como se vê, os problemas econômicos provocaram a perda de atletas formados em Cuba. A Ilha ainda os forma, mas deverá perder mais. A Escola de Aperfeiçoamento Atlético continua lá, em Havana. Todo o sistema educacional, esportivo e de saúde move suas engrenagens. Cuba continuará a conquistar medalhas. O número, no Rio, talvez seja ainda menor do que o de Londres 2012. Mas o conhecimento cubano estará na Cidade Maravilhosa, orientando os saltos de Ibargüen e os movimentos do brasileiro Fernando Reis, para citar apenas dois exemplos.

É toda uma história que orgulha o povo de Havana, de Camaguey, Matanzas, Pinar del Río, Santiago de Cuba. E que deverá continuar depois da morte de Fidel Castro. De alguma forma, todo o conhecimento produzido e transmitido pelos excepcionais professores de educação física ainda haverá de produzir algo de belo. E alguém poderá dizer, mesmo que baixinho e sob um futuro regime capitalista: “Hasta la victoria siempre”.

Alessandro Luchetti

Especial para o Bikpek.

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