Na campanha que levou o Uruguai ao ouro olímpico no futebol em Paris 1924, um jogador chamou a atenção dos europeus. José Leandro Andrade encantou com sua desenvoltura em campo, que lhe rendeu o apelido de la merveille noire pela imprensa francesa: “A Maravilha Negra”. Numa época em que quase não havia sul-americanos ou africanos jogando no Velho Continente, o grande craque uruguaio foi o primeiro jogador negro que muitos franceses viram. E como jogava. Nos sete anos em que vestiu a camisa celeste do Uruguai, Andrade disputou 43 partidas e só perdeu três. Além do ouro em Paris, colocou no peito a medalha dourada em 1928, em Amsterdã. Em 1930, venceria a primeira Copa do Mundo. Andrade trazia na pele a comprovação de que o futebol não era mais uma exclusividade da Europa – com ele, a melhor equipe do mundo da década de 1920 criou a lenda da Celeste Olímpica, rompeu a hegemonia europeia e, de quebra, mudou para sempre a forma como o futebol passou a se relacionar com os Jogos.

Quando o Uruguai desembarcou na França, o futebol não era novidade nos Jogos Olímpicos. Na edição pioneira de 1896, já havia sido esporte de exibição (ainda sem valer medalhas) e quatro anos depois passou para o programa oficial. Mas o football ainda engatinhava. Em 1912, nos Jogos de Estocolmo, os organizadores cogitaram nem incluí-lo na disputa, alegando a pouca difusão da modalidade no mundo. As grandes viagens ainda eram feitas de barco, e só equipes europeias se inscreveram para a competição. O futebol não era grande o suficiente para que alguém encarasse os custos de uma viagem transatlântica: nenhum país latino-americano quis realizar a travessia.

Doze anos depois, porém, muito havia mudado. Naquele curto intervalo, o esporte cujo objetivo era simplesmente chutar uma bola dentro do goal tinha se tornado tão popular que um terço de toda a receita obtida nas Olimpíadas de 1924 viria dos estádios de futebol. Entidade criada para reger o football internacional, a Fifa assumiu a chancela do torneio olímpico, e decidiu reconhecer os medalhistas de ouro como “campeões mundiais amadores”. Era, de fato, a primeira vez que o futebol podia se considerar algo próximo de “mundial”: em Paris, além dos velhos conhecidos (times europeus e os Estados Unidos), a lista de participantes incluía os exóticos Egito e Uruguai, uma pequena nação sul-americana da qual poucos tinham ouvido falar.

Seleção uruguaia campeã olímpica em 1924

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A seleção uruguaia medalhista de ouro dos Jogos de Paris 1924: o futebol viraria um esporte global

Que país era aquele? Certamente, um dos mais avançados da América Latina. O Uruguai vivia na esteira do batllismo, a doutrina do ex-presidente José Batlle: durante seus dois mandatos (1903-1907 e 1911-1915), ele havia impulsionado uma espécie de Estado de bem-estar social, defendendo o controle estatal sobre serviços básicos e setores fundamentais da economia, criando leis trabalhistas para garantir uma distribuição de renda justa. Além disso, o país tinha altos índices de escolaridade: havia sido a primeira nação sul-americana a impor a obrigatoriedade da educação primária, ainda em 1876 – no Brasil, isso só ocorreria com a Constituição de 1934. Foi nessa época que o Uruguai ganhou o apelido de Suíça da América e, como costuma acontecer, a melhora na vida da população se refletiu no esporte.

Mas, com apenas 1,75 milhão de habitantes na época, seria o Uruguai capaz de enviar não apenas um competidor, mas um time de futebol inteiro aos Jogos Olímpicos? É verdade que o país não chegava à França sem credenciais: sua participação nos Jogos de 1924 foi um prêmio pelo título continental do ano anterior. O Campeonato Sul-Americano havia ocorrido em solo uruguaio, e os entusiasmados dirigentes do país prometeram dar um jeito de levar o time a Paris se ele levantasse o troféu diante da sua torcida. Em campo, o título aconteceu. Fora dele, foi preciso improvisar para cumprir a promessa: o Congresso uruguaio não votou a tempo a lei que financiaria as passagens da equipe, e a viagem só saiu graças ao médico Atilio Narancio, que hipotecou suas propriedades para angariar fundos. Um dos pioneiros do futebol uruguaio, Narancio receberia a alcunha de Pai da Vitória após a conquista da medalha de ouro.

Graças à influência britânica no Rio da Prata, uruguaios começaram cedo a praticar o futebol

Era a primeira vez que uma seleção sul-americana disputava um torneio no outro lado do Atlântico. E a Europa logo descobriria, com muitas derrotas, que o Uruguai conhecia tão bem o futebol quanto ela. Graças à influência britânica na navegação do Rio da Prata, uruguaios e argentinos começaram a praticar o esporte muito cedo, antes de seus vizinhos sul-americanos. A Argentina iniciou seu campeonato nacional de fútbol em 1891 e o Uruguai, em 1900. No Brasil, por exemplo, um torneio nacional só surgiria em 1959. A influência inglesa era óbvia: um dos maiores clubes de futebol uruguaios, o Peñarol, surgiu ainda no século 19 com o nome de Central Uruguay Railway Cricket Club. O CURCC, como o nome explica, havia sido fundado por ferroviários britânicos e dedicou-se ao críquete antes de mudar de esporte.

Os uruguaios Juan Piriz, Alvaro Gestido e Hector Scarone

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A emoção de Alvaro Gestido entre Juan Piriz e Hector Scarone na campanha do bi, em Amsterdã 1928

Assim, no início do século 20, Uruguai e Argentina eram as forças soberanas no mapa futebolístico da América do Sul. Poderia ser uma disputa injusta, afinal os argentinos tinham um país maior e mais populoso para garimpar craques, mas na prática o equilíbrio imperava: as seleções acabavam sendo equipes de suas capitais, resumindo-se a jogadores que defendiam os clubes de Buenos Aires e Montevidéu. O domínio era total: até a Copa do Mundo de 1930, uruguaios e argentinos venceriam dez dos 12 Campeonatos Sul-Americanos disputados. O único intruso na lista de campeões foi o Brasil, vencedor em 1919 e 1922, quando o torneio aconteceu no Rio de Janeiro. Fora de casa, os brasileiros não metiam medo: a grande rivalidade sul-americana estava mesmo no Rio da Prata.

O Uruguai pioneiro zarpou de Montevidéu dia 8 de abril de 1924, na terceira classe do navio Desirade. Sem muita esperança, poucos torcedores foram ao porto se despedir. Com 22 seleções inscritas, o torneio olímpico em Paris seria por quase seis décadas a maior competição internacional de futebol da história – foi superado apenas em 1982, quando a Fifa ampliou as vagas na Copa do Mundo de 16 para 24 (em 1998 passaria para 32). A Celeste, que logo seria Olímpica, estava cheia de craques: além de Andrade, destacavam-se o goleador Pedro Petrone, o capitão José Nasazzi e o “Mago” Héctor Scarone. Sobre Scarone, aliás, muitas lendas surgiriam: que era capaz de atuar em qualquer posição do time e que em toda a carreira jamais teria chutado um pênalti para fora ou nas mãos do goleiro, fazendo 116 gols em 117 cobranças (uma bateu na trave).

Ao comemorar o ouro, uruguaios inventaram uma tradição dos campeões: a volta olímpica

Além da qualidade de seu time, o Uruguai tinha a seu lado o fator surpresa: nenhum adversário havia visto aquela equipe jogar antes. O desconhecimento em relação ao futebol sul-americano era tamanho que, no treinamento antes da estreia, contra a Iugoslávia, os uruguaios perceberam que estavam sendo espionados pelos oponentes e começaram a chutar bem longe do gol, oferecendo a ilusão de que seriam presa fácil. Na hora do jogo, os atônitos iugoslavos foram goleados por 7 a 0. Os Estados Unidos (3 a 0), a anfitriã, França (5 a 1), e a Holanda (2 a 1) também ficaram pelo caminho até a final, quando a medalha de ouro foi conquistada com um 3 a 0 sobre a Suíça no Estádio Olímpico de Colombes, na região metropolitana de Paris. Na comemoração, os uruguaios andaram ao redor do campo acenando para o público: seria a primeira volta olímpica da história do futebol.

Muitas explicações foram dadas pelos europeus para explicar a facilidade com que o Uruguai passou por seus times – a principal delas foi a Primeira Guerra Mundial (1914-1919), que vitimou milhões de jovens que poderiam ter brilhado no futebol. Mas, quatro anos depois, em 1928, a repetição do ouro uruguaio comprovaria que a vitória em Paris não era uma casualidade. O título da Celeste em 1924 incentivou outros latino-americanos: Argentina, Chile e México acompanharam a aventura nos Jogos de Amsterdã. A qualidade do continente foi reafirmada, com a final do torneio colocando frente a frente os argentinos e os uruguaios, que acabaram bicampeões. Também foi uma comprovação da popularidade do futebol: o estádio tinha capacidade para apenas 30 mil pessoas, mas os organizadores receberam mais de 250 mil telegramas de toda a Europa solicitando ingressos para a decisão.

Uruguaios saúdam torcida após final olímpica em 1924

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Os uruguaios saúdam a torcida após vencer a Suíça na final: e assim foi criada a volta olímpica

As conquistas do Uruguai, questionando a superioridade europeia, e o enorme interesse do público comprovavam que o futebol já era grande e globalizado o suficiente para caminhar sozinho – além de muito lucrativo. Outro fator também pesava: o futebol avançava rumo ao profissionalismo, e os Jogos Olímpicos exigiam que os atletas fossem todos amadores. As Olimpíadas não poderiam ser o campeonato mundial de futebol se os maiores jogadores da modalidade já não eram aceitos. Foi em Amsterdã mesmo, aproveitando as equipes reunidas para o torneio de 1928, que a Fifa realizou o congresso histórico em que decidiu criar sua própria Copa do Mundo, estabelecendo o Uruguai como sede da edição inaugural por seus méritos dentro de campo.

Seleção uruguaia posada na Copa de 1930

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O Uruguai, já bicampeão olímpico, na primeira Copa do Mundo, em 1930, que disputou em casa

Construído especialmente para a Copa, o Estádio Centenário de Montevidéu honrou as conquistas olímpicas no nome de suas arquibancadas: atrás de cada gol, existem hoje a tribuna Colombes e a Amsterdã. Mas essa foi a única relação que restou entre a Copa do Mundo e as Olimpíadas. O início do torneio da Fifa, em 1930, foi o rompimento definitivo do futebol com os Jogos Olímpicos: em 1932, pela primeira vez desde que fora incluído no programa, o futebol nem esteve presente na disputa por medalhas. O futebol olímpico retornaria em 1936 e segue até hoje, mas, sem os principais craques, nunca recuperou o prestígio daqueles dias em que o Uruguai de Andrade surpreendeu a todos e se tornou o menor país do mundo a conquistar uma medalha de ouro.

Abaixo, lance da partida Uruguai 3 x 0 Estados Unidos, em Paris, e registro da viagem de navio que levou a  seleção uruguaia de futebol para Amsterdã, em 1928.

Maurício Brum

Especial para o Bikpek.

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