Talvez você já tenha feito a pergunta que dá título a este texto. Talvez faça em algum momento. Afinal, onde estão os atletas ingleses nos Jogos Olímpicos? Tente também encontrar competidores da Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales. Não há como achá-los. Porque, para o COI (Comitê Olímpico Internacional), estes países não existem de forma independente.

O tenista escocês Andy Murray foi escolhido para ser o porta-bandeira da Grã-Bretanha na cerimônia de abertura da Rio 2016. Quatro anos antes, em Londres, foi outro escocês o eleito, o ciclista Chris Hoy. Note: os dois carregaram a Union Jack, como é chamada a bandeira da Grã-Bretanha, que é a nação reconhecida pelo COI.

Greg Rutherford comemora ouro no salto em distância em Londres 2012

Arquivo/COI

O inglês Greg Rutherford deu à Grã-Bretanha a medalha de ouro no salto em distância em Londres 2012

Grã-Bretanha é a ilha que compreende Inglaterra, Escócia e País de Gales, três dos quatro países que formam o Reino Unido. A eles soma-se a Irlanda do Norte. A Associação Olímpica Britânica é a entidade filiada e reconhecida pelo COI. Não existe comitê inglês ou escocês reconhecido pela responsável pelos Jogos. É aí que entra, então, a geografia.

Por que quem disputa os Jogos Olímpicos é a Grã-Bretanha, o que teoricamente excluiria os atletas da Irlanda do Norte? O nome oficial do Reino Unido é “Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte”. É assim que os quatro países juntos participam de organizações multigovernamentais, como a ONU. No esporte olímpico, porém, se adotou o nome Grã-Bretanha para os quatro países – antigamente, na cerimônia de abertura, o nome da Irlanda aparecia junto, mas esta prática não é mais adotada hoje.

A inglesa Vicky Thornley e a escocesa Katherine Grainger, medalhistas de ouro no remo em 2012

Team GB

A inglesa Vicky Thornley e a escocesa Katherine Grainger, medalhistas de ouro no remo em 2012

A confusão com o nome é amplificada pelo futebol.  A Football Association, entidade que comanda a modalidade na Inglaterra, foi fundada em 1863. A Escócia criou a sua em 1873, três anos antes do País de Gales. No esporte mais popular do mundo, os quatro países – incluindo a Irlanda do Norte – são independentes. O mesmo acontece com diversas outras modalidades, como o rúgbi.

A associação olímpica, hoje chamada de Team GB (time Grã-Bretanha, em inglês) foi fundada bem mais tarde, em 1905, quando  o futebol e o rúgbi já tinham uma identidade própria e seria impensável unir três países já rivais em torno de associações únicas – a Irlanda do Norte se separou da Irlanda em 1921. É este um bom motivo pelo qual raramente a Grã-Bretanha disputa Olimpíadas com esportes coletivos. Uma exceção foram os Jogos de 2012, em Londres, quando disputou até modalidades com pouca tradição no Reino Unido, como basquete e handebol.

A história, então se resume ao que pode ser chamado de erro geopolítico: quem disputa os Jogos Olímpicos é o Reino Unido – em 2012, a “Folha de S.Paulo” chegou a chamar assim os atletas da delegação. Esportivamente, porém é a Grã-Bretanha quem compete.

Grã-Bretanha na cerimônia de abertura em Melbourne 1956

Arquivo/Life

Abertura em Melbourne 1956: a placa indica a entrada da delegação da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte
Rodrigo Borges

Rodrigo Borges

Editor

Jornalista desde 1997, com passagens por Lance!, Destak e ESPN. Mora desde 2015 em Londres, onde trabalha como freelancer para diversas publicações brasileiras, função que já exerceu também em Nova York. É um dos cofundadores do Bikpek.

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