O futebol é um esporte inventado por ingleses no século 19, certo? A resposta é “sim” se considerarmos a forma como o conhecemos hoje. Mas há um “porém” na história. Diversos pesquisadores apontam que versões semelhantes da modalidade já apareciam em culturas muito antigas. Na China, militares praticavam por volta de 3000 a. C. um jogo macabro que servia como treinamento militar. Depois das guerras, formavam equipes para chutar cabeças de soldados inimigos.

Com o tempo, as cabeças dos inimigos foram felizmente substituídas por bolas de couro revestidas com cabelo. Formavam-se duas equipes com oito jogadores e o objetivo era passar a bola de pé em pé sem deixar cair no chão, levando-a para dentro de duas estacas fincadas no campo. Estas estacas eram ligadas por um fio de cera.

Final da Copa da Inglaterra em 1900: Bury venceu Southampton por 4 a 0

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Final da Copa da Inglaterra, torneio mais antigo do mundo, em 1900: Bury venceu Southampton por 4 a 0

Também existem registros antigos de práticas semelhantes ao futebol no Japão (onde era chamado de kemari), na Grécia antiga (soldados disputavam um jogo conhecido como episkyros), na Roma antiga (harpastum, uma adaptação da versão grega) e em Florença durante a Idade Média, com o nome de giuoco del calcio. Em todas estas versões, sempre havia um campo e jogadores divididos em duas equipes que corriam atrás de uma bola ou objeto semelhante. Algumas vezes com extrema violência.

Bastante popular nas vilas inglesas durante a Idade Média, o novo esporte era violento e desorganizado. Tudo isso culminou com uma polêmica decisão do rei Eduardo 2°, que em 13 de abril de 1314 decretou uma lei proibindo a prática do jogo e ameaçando de prisão seus praticantes. Banido ao longo de quatro séculos, o futebol só ressurgiu no começo do século 19, adotado como atividade física por três escolas da elite inglesa. E sua popularidade só fez crescer.

Final do futebol em Berlim 1936: Itália venceu a Áustria por 2 a 1

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Itália (de short branco) venceu a Áustria por 2 a 1 e levou a medalha de ouro nos Jogos de Berlim 1936

O crescimento tornou necessária a uniformização das regras, pois tocar a bola com as mãos e os pés era permitido em alguns lugares. Foi a partir daí que o futebol começou a se diferenciar do rúgbi. E em 1863, com a criação da Football Association, que estabeleceu as regras do jogo, nasceu o futebol como o conhecemos hoje. Oito anos depois, em 1871, foi disputada a primeira competição oficial, a Copa da Inglaterra (FA Cup), que existe até hoje.

A implantação do profissionalismo na Inglaterra, em 1885, ajudou a agilizar o processo de expansão do futebol no mundo. Um dos países atingidos pela febre da bola foi o Brasil, com a volta ao país do paulista Charles Miller, um filho de pai escocês que foi estudar na Inglaterra e de lá voltou com uma bola, dois jogos de camisa, alguns pares de chuteira e uma bola. Obviamente não tinha noção à época de que trazia ao país aquela que seria sua maior manifestação esportiva e cultural.

O brasileiro João Paulo passa pelo soviético Alexei Mikhailichenko na final em Seul 1988

Arquivo/COI

O brasileiro João Paulo passa pela marcação do soviético Alexei Mikhailichenko na final em Seul 1988

Em 1904, foi fundada a Fifa (Federação Internacional de Futebol), que comanda mundialmente a modalidade com base nas regras da Football Association. Também patrocina a competição esportiva mais importante de um único esporte, a Copa do Mundo, que teve sua primeira edição em 1930, no Uruguai. No Brasil, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) é a responsável pela modalidade. Foi criada em 1979, com o fim da CBD (Confederação Brasileira de Desportos, fundada em 1916).

História olímpica

A chegada do futebol nos Jogos Olímpicos aconteceu em Paris 1900, ainda como esporte-exibição e com clubes representando países. A entrada definitiva foi em Londres 1908 e, desde então, a modalidade só não esteve nos Jogos em Los Angeles 1932, por causa de uma divergência entre Fifa e COI sobre a permissão ou não de jogadores profissionais.

Nos anos 1920, o torneio olímpico tornou-se a principal competição do mundo entre seleções. Foram as Olimpíadas que consagraram o Uruguai, que acabou conhecido como a Celeste Olímpica.  Foram duas medalhas de ouro, em Paris 1924 e Amsterdã 1928, quando houve final sul-americana, com Argentina ficando com a prata. Com a estreia da Copa do Mundo da Fifa, em 1930, o torneio olímpico começou a perder relevância.

A exigência do amadorismo por parte do COI, que causou a exclusão do programa em 1932, foi outro fator que diminuiu a importância do esporte no cenário olímpico. Os países do bloco comunista levavam vantagem ao utilizar em Olimpíadas os mesmos jogadores das seleções principais, sob o argumento de que não eram profissionais – oficialmente, muitos deles eram funcionários de empresas estatais. Com isso, conseguiam dominar com facilidade o torneio, enfrentando jogadores amadores ou juvenis.

EUA e Noruega pelas semifinais em Atlanta 1996

Arquivo/COI

EUA e Noruega (de vermelho) nas semifinais em Atlanta1996: estreia do futebol feminino

Os países da extinta Cortina de Ferro conquistaram todas as oito medalhas de ouro de Helsinque 1952 a Moscou 1980. Em quatro oportunidades ocuparam todos os degraus do pódio. A história começou a mudar em Los Angeles 1984, ano do boicote liderado pela União Soviética e que teve o torneio de futebol vencido pela França, em uma final contra o Brasil. Naquele ano, o COI resolveu mudar o regulamento da competição, permitindo a presença de jogadores profissionais, desde que não tivessem disputado uma Copa.

A partir dos Jogos de Barcelona 1992, mais uma mudança: o torneio masculino seria disputado por jogadores com no máximo 23 anos, mas era permitida a inscrição de três jogadores acima desta idade em cada seleção.

A última mudança relevante ocorreu aconteceu em Atlanta 1996, quando as mulheres, no ano seguinte à disputa da primeira Copa do Mundo feminina, passaram a disputar o torneio, sem restrição de idade.

A fórmula de disputa do torneio olímpico é igual para homens e mulheres: na primeira fase, os participantes (16 no masculino e 12 no feminino) são distribuídos em grupos de quatro seleções cada. Todos se enfrentam e os dois melhores de cada chave avançam à etapa eliminatória – no feminino, os seis classificados ganham a companhia dos dois melhores terceiros colocados. Em caso de empate nas partidas do mata-mata, o jogo vai para a prorrogação e, se a igualdade persistir, o vencedor sai em disputa de pênaltis.

EUA enfrenta o Japão na final feminina do futebol em Londres 2012

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Final do torneio feminino em Londres 2012: EUA venceram o Japão e levaram o ouro pela quarta vez

Fonte: COI (Comitê Olímpico Internacional), COB (Comitê Olímpico do Brasil), Rio 2016, Fifa e “Gol de Ouro: A história do futebol nos Jogos Olímpicos” (Adalberto Leister Filho e Luis Augusto Simon, Letras do Brasil, 293 páginas).

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