O Escritório de Prisões do Departamento de Justiça dos Estados Unidos recebeu nos últimos anos diversas reclamações de violações na Instituição Correcional Federal Ray Brook. Algumas delas são relacionadas ao aperto ao qual os 870 internos são submetidos nas pequenas celas do lugar: cada cubículo têm dois metros de largura por quatro de comprimento, incluindo a cama e instalações sanitárias. A acomodação desconfortável ajuda a entender a decepção de alguns dos cerca de mil atletas olímpicos que estiveram nos prédios localizados no condado de Essex, em Nova York, em 1980. A instituição foi usada como vila olímpica dos Jogos Olímpicos de inverno de Lake Placid, de 14 a 23 de fevereiro.

“A vila é pior do que as de todas as outras edições”, disse Yuri Sych, porta-voz da delegação soviética, ao chegar a Lake Placid, que sediava os Jogos pela segunda vez (a primeira fora em 1932). Passados 35 anos, o trauma daquela experiência não foi superado. “Você cresce e sonha em participar das Olimpíadas, vê [os Jogos] na TV, treina e joga duro e quando você vai competir no principal palco do esporte, os Jogos Olímpicos, a vila é a prisão”, lembrou em 2015 Viacheslav Fetisov, ex-jogador de hóquei sobre gelo da União Soviética.

Instituição Correcional Federal Ray Brook

Departamento de Justiça dos EUA

A Instituição Correcional Federal Ray Brook, usada como vila olímpica em 1980: pouco conforto

A memória ruim sobre a vila olímpica “prisional” não se deve apenas a um exagerado plano para aproveitar o legado dos Jogos. A decisão foi fruto da transformação das Olimpíadas em uma continuação da política, processo que teve como marcos a humilhação de Adolf Hitler em Berlim 1936 e os punhos fechados de Tommie Smith e John Carlos na Cidade do México 1968, mas que se aprofundou nos anos 1970 e chegou ao auge em 1980.

O evento na vila no norte do estado de Nova York escapou dos boicotes que marcaram as edições de 1980, em Moscou, e 1984, em Los Angeles

Temendo a lembrança do Massacre de Munique, em 1972, quando guerrilheiros da organização palestina Setembro Negro chacinaram 11 atletas israelenses e um policial alemão depois de um sequestro na vila olímpica, as autoridades americanas optaram por privilegiar a segurança dos atletas e decidiram abrigá-los no pouco aconchegante complexo de prédios que viria a se tornar o presídio. Para sorte dos atletas – e do esporte –, parou  aí a influência política naquela disputa olímpica, e Lake Placid escapou dos boicotes que destruíram os Jogos de verão de 1980 e 1984. Ali aconteceu o Milagre no Gelo, como ficou conhecida a histórica vitória dos EUA sobre a URSS no hóquei.

O célebre confronto entre as duas potências mundiais só aconteceu por uma questão de calendário. Em dezembro de 1979, a URSS invadiu o Afeganistão na tentativa de salvar o governo comunista que tinha chegado ao poder no ano anterior por meio de um golpe. A ação do regime então comandado por Leonid Brejnev foi rechaçada pela comunidade internacional e criou um novo caso de extrema tensão entre Washington e Moscou em meio à Guerra Fria.

Esquiador sueco Ingemar Stenmark competindo

Reprodução/COI

O esquiador sueco Ingemar Stenmark, medalha de ouro em Lake Placid no slalom e slalom gigante

Pressionado pela crise dos reféns em Teerã após a Revolução Iraniana e pela disputa da reeleição, o então presidente dos EUA, Jimmy Carter, buscou formas de punir o governo soviético. Ciente de que não havia soluções militares para a invasão do Afeganistão e que condenações retóricas seriam inúteis, Carter tentou tirar de Moscou o direito de sediar os Jogos e, depois, passou a advogar o boicote à primeira edição de uma olimpíada em um país comunista. Seu ímpeto provocou o temor de que todo o movimento olímpico fosse comprometido e indignou o então presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), o britânico Lord Killanin. Depois de receber uma visita de Lloyd Cutler, conselheiro de Carter que exigiu a mudança do local dos Jogos, Killanin afirmou que o chefe da Casa Branca tinha “transformado a arena olímpica em seu próprio campo de batalha”.

A chocante vitória da seleção universitária dos EUA sobre os poderosos soviéticos no hóquei sobre gelo é um dos maiores feitos da história olímpica

Carter estava disposto a bancar a aventura. O fracasso dos Jogos causaria um enorme prejuízo financeiro a Moscou, sem contar o abalo ao prestígio soviético – no Kremlin, a escolha da capital para sediar as Olimpíadas fora encarada como um banho de legitimidade ao regime. A Casa Branca foi até o fim em sua ideia e conseguiu impedir a delegação americana de disputar a competição, mas o boicote foi furado por diversos países e indivíduos do bloco ocidental liderado por Washington.

Se em julho de 1980 algumas nações acompanharam os EUA no boicote, em janeiro daquele ano a ideia era ainda embrionária. Não houve tempo para que a campanha de Carter afetasse Lake Placid. Como conta Philip D’Agati no livro “The Cold War and the 1984 Olympic Games”, naquele momento o COI ainda acreditava ser possível reverter o ímpeto pelo boicote e os soviéticos acreditavam que poderiam usar a participação nos Jogos de Inverno como moeda de troca para ter todos os países nos Jogos de verão.

EUA contra União Soviética, o Milagre no Gelo

Arquivo/COI

Milagre no Gelo: amadores americanos chocaram o mundo ao bater a forte seleção soviética

O Milagre

O ponto alto de Lake Placid foi o jogo que ficou conhecido como Milagre no Gelo e tornou-se um dos grandes momentos da história olímpica. Em 22 de fevereiro de 1980, 13 dias depois de ser goleado por 10 a 3 pela União Soviética em um amistoso, o time amador dos Estados Unidos, comandado por Herb Brooks, derrotou os soviéticos, os melhores do mundo, por 4 a 3. Era um imenso baque no esporte do qual os comunistas mais se orgulhavam. Um empate bastava para a URSS manter a vantagem na fase final rumo ao ouro, mas o time que tinha craques como Sergei Makarov e Vladislav Tretiak teve de se contentar com a prata após os EUA confirmarem o título com uma vitória sobre a Finlândia na rodada final.

A estratégia soviética não deu certo, mas com os principais atletas do mundo competindo juntos em Nova York, Lake Placid teve momentos históricos. O norte-americano Eric Haiden conquistou cinco medalhas de ouro na patinação de velocidade, recorde individual até hoje não igualado; o soviético Nikolay Zimyatov levou os três ouros no esqui cross-country; o soviético Aleksandr Tikhonov ganhou sua quarta medalha de ouro consecutiva no revezamento do biatlo; e o alemão oriental Ulrich Wehling e a soviética Irina Rodnina se tornaram tricampeões olímpicos no combinado nórdico e na patinação artística.

“Nosso time fez um bom jogo, mas o time dos EUA teve muita velocidade, [eles] nunca desistiram e tiveram muito apoio da torcida”, diz Fetisov, que aproveitou a Glasnost, a abertura comandada pelo presidente soviético Mikhail Gorbachev, para jogar na NHL, a liga americana de hóquei, onde conquistaria duas Stanley Cups pelo Detroit Red Wings. “Eu aprendi uma boa lição: nunca subestime seu oponente”.

Desde 1980, os EUA só voltaram duas vezes ao pódio do hóquei olímpico, com as pratas em 2002 e 2010. Até hoje, o Milagre no Gelo é saudado nos EUA como um momento histórico. Tudo porque os Jogos de 1980 conseguiram escapar do boicote.

José Antonio Lima

Especial para o Bikpek.

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