Depois de duas semanas de competições, uma lágrima escorreu diante dos olhos de todo o mundo. Para quem está perto dos 40 anos, a lembrança ainda é viva na memória, mas até mais jovens já ouviram falar em Misha, urso que chorou na cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de Moscou-1980. É provável que nenhum outro mascote consiga ter o impacto do ursinho russo (soviético, à época). O simpático bichinho representou o auge de uma história que começou no fim do século 19, a dos mascotes olímpicos.

Mascote Misha na cerimônia de abertura dos Jogos de Moscou 1980

Arquivo/COI

Misha, o mais famoso mascote olímpico e que chorou na cerimônia de encerramento em Moscou 1980

Na década de 1880, fez sucesso na França uma ópera chamada La Mascotte (o mascote). A história tratava de uma garota criada no campo e que supostamente dava sorte a quem estivesse com ela, desde que permanecesse virgem. Inspiradas no espetáculo, começaram a ser produzidas joias e vendidas como uma espécie de amuleto. O conceito é o mesmo dos mascotes criados no século 20 para várias instituições, times e até Jogos Olímpicos.

“O mascote, com suas cores, nome, visual e outras características, comunica o espírito de cada edição dos Jogos Olímpicos. É um símbolo importante da identidade do evento”, diz Anne Chevalley, chefe do Museu Olímpico do COI (Comitê Olímpico Internacional), na Suíça. “Os Jogos não são apenas as competições, mas são também o momento para que criadores proponham coisas novas. O mascote pertence a este processo, ele pode dar um novo toque ao evento”, afirma.

Urso empalhado que foi mascote do Chicago Cubs em 1908

Reprodução

O urso empalhado que serviu de mascote para o Chicago Cubs em 1908: a ideia não foi das mais felizes

Embora sejam hoje uma parte tradicional do evento, mascotes não foram introduzidos no esporte pelos Jogos Olímpicos. Já no início do século 20, diversos times de beisebol dos EUA usavam mascote como sinal de boa sorte – era um período de grande superstição na modalidade. Os mascotes não eram necessariamente figuras feitas especialmente para crianças e eventualmente conquistar adultos. Poderiam ser mulheres de jogadores, filhos ou pessoas aleatórias, algumas delas que chegaram a se tornar profissionais e mudavam de times, contratadas como se fossem jogadores ou técnicos.

Nem todas as ideias eram bem-sucedidas. Em 1908, o Chicago Cubs usou a bizarra figura de um urso empalhado como mascote. Em 1916, um fã enviou um filhote de urso para o time, que escapou da jaula e acabou morto a tiros depois de invadir uma fábrica de roupas. A equipe passou décadas sem mascotes, até 2014, quando foi criado Clark, outro urso.

Waldi, mascote dos Jogos Olímpicos de Munique 1972

Arquivo/COI

Waldi, primeiro mascote olímpico oficial, era um cachorro de uma raça popular em Munique, na Alemanha

Nos Jogos Olímpicos, mascotes são recentes. A estreia aconteceu em 1972 com Waldi, um cachorro da raça dachshund, conhecida pela energia e popular à época em Munique, então sede dos Jogos. O personagem era inspirado em um cão real, chamado Cherie von Birkenhof, que o presidente do comitê organizador deu ao presidente da Associação Internacional de Imprensa.

Waldi nasceu dia 15 de dezembro de 1969, no jantar de Natal da organização do evento. Os participantes receberam giz de cera, papel e argila e criaram possíveis mascotes. Segundo o livro “The Olympic Marathon” (2000, não disponível no Brasil), o traçado da maratona foi elaborado para que visto de cima se transformasse no desenho de Waldi.

Schuss, mascote não-oficial dos Jogos de inverno de 1968

Arquivo/COI

Schuss, o estranho esquiador usado como símbolo não-oficial dos Jogos de Inverno de Grenoble 1968

Embora Waldi tenha sido o primeiro mascote olímpico oficial, quatro anos antes um estranho esquiador estilizado já havia sido usado nos Jogos de inverno de Grenoble, na França. Desde então, todos os eventos, de verão ou na neve, tiveram o seu “símbolo de boa sorte” – e também usado hoje para arrecadar muito dinheiro com produtos licenciados.

No Rio, o mascote escolhido é Vinicius, cujo nome foi inspirado no poeta e compositor Vinicius de Moraes. Segundo a organização dos Jogos de 2016, trata-se da mistura de diversos animais da fauna brasileira e surgiu a partir da “explosão de alegria” que aconteceu quando a cidade foi eleita sede olímpica, no dia 2 de outubro de 2009.

Vinicius, mascote da Rio 2016, no bondinho do Pão de Açucar
Vinicius, mascote da Rio 2016, no bondinho do Pão de Açucar quando faltavam 500 dias para os Jogos

Vinicius luta contra um destino comum para mascotes recentes: o esquecimento. Depois de Misha, poucos mascotes conseguiram deixar uma marca nos Jogos para os quais foram criados. Faça o teste: você se lembra dos mascotes dos Jogos Olímpicos de Pequim 2008? Ou pelo menos se lembra qual era o mascote em Sydney 2000 (dica: eram três, e nenhum deles um canguru)?

Em Pequim, os cinco (!) mascotes (Beibei, Jingjing, Yingying, Nini e Huanhuan) são uma espécie de símbolo da megalomania de Jogos que custaram US$ 40 bilhões e deixaram para trás instalações que não são usadas. Segundo a agência Associated Press, nem mesmo chineses costumam se lembrar do quinteto que foi criado para dar boa sorte ao evento e aos atletas.

Misha e sua lágrima encantadora deixaram uma espécie de maldição para os mascotes seguintes: aparentemente, jamais será possível igualar o carisma do urso que chorou.

Beibei, Nini, Huanhuan, Yingying e Jingjing, mascotes de Pequim 2008

Arquivo/COI

Beibei, Nini, Huanhuan, Yingying e Jingjing: você ainda se lembrava dos cinco mascotes de Pequim 2008?
Rodrigo Borges

Rodrigo Borges

Editor

Jornalista desde 1997, com passagens por Lance!, Destak e ESPN. Mora desde 2015 em Londres, onde trabalha como freelancer para diversas publicações brasileiras, função que já exerceu também em Nova York. É um dos cofundadores do Bikpek.

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