São ilhas de excelência isoladas do resto do mundo. Basta olhar o quadro de medalhas de qualquer competição de atletismo e você verá Jamaica e Quênia no topo. Os caribenhos terão dominado as provas de velocidade, e os africanos, as de longa distância. É certo.

Nos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres, os jamaicanos conquistaram nas pistas 12 medalhas (quatro ouros, quatro pratas e quatro bronzes) e terminaram em 18° no quadro de medalhas. O Quênia ganhou dois ouros, quatro pratas e cinco bronzes. Os dois países juntos acumularam 28% das 81 medalhas distribuídas em provas de pista e nas maratonas na capital inglesa.

No Campeonato Mundial de atletismo de 2015, disputado em Pequim, o Quênia surpreendeu e, pela primeira vez, liderou a competição, com 16 medalhas, sete delas de ouro. A Jamaica apareceu em seguida, com 12 medalhas e as mesmas sete de ouro. Os EUA, grande potência histórica da modalidade, ficaram somente em terceiro lugar, levando-se em conta o número de ouros —foram seis de um total de 18 medalhas.

Mas o que leva esses dois países a produzirem tantos talentos no atletismo, superando potências tradicionais e muito mais fortes economicamente?

Jamaica

Usain Bolt em posição de largada

Divulgação/Puma

Usain Bolt, maior atleta da história da Jamaica, é um popstar das pistas

Um país pobre, uma ilha na América Central ao sul de Cuba com menos de 3 milhões de habitantes e cerca de 11 mil km², metade da área do estado de Sergipe. Nas provas de velocidade, porém, é uma potência.

Os jamaicanos conquistaram suas primeiras medalhas olímpicas em Londres 1948 – dobradinha nos 400 m rasos e prata nos 800 m rasos. Parecia acaso. Mas a partir de 1968, na Cidade do México, os atletas do país passaram a frequentar o pódio de todas as edições olímpicas. O ápice aconteceu em Pequim 2008, quando Usain Bolt assombrou o mundo e levou três ouros e quebrou três recordes mundiais (100 m, 200 m e 4 x 100 m rasos), e depois em Londres 2012, quando os jamaicanos ganharam ouro, prata e bronze nos 200 m rasos — no total, foram 12 medalhas. Na história, a ilha soma 66 pódios.

Olhando para estes resultados, é difícil falar em sorte ou acreditar que o inhame jamaicano dá mais energia. Tanto que cientistas têm se debruçado sobre o assunto há anos e já chegaram a algumas conclusões.

Uma destas conclusões tem relação com o tipo dos escravos africanos que foram levados para o país. Eram de tribos guerreiras da África ocidental. A mistura com os jamaicanos gerou um tipo físico alto, com quadril estreito e pernas longas, boas para passadas amplas e fortes, essenciais nas provas de velocidade. O tronco compacto também ajudaria a proporcionar uma troca de oxigênio mais eficiente, gerando energia para os músculos. A coluna, com uma ligeira curvatura (lordose), seria outro ingrediente importante, ajudando os atletas a erguerem os joelhos na hora da passada, um dos segredos desse fundamento. Na Jamaica, 98% da população tem fibras musculares rápidas, o que os tornam mais aptos para provas de velocidade.

Atletismo é parte do currículo escolar na Jamaica. Anualmente, uma competição reúne 3 mil alunos

A genética ajuda, mas sozinha não cria campeões. Outros países também receberam os mesmos escravos mas nem por isso são potências do atletismo. Havia necessidade de um “tempero”. Os jamaicanos criaram um sistema de incentivo à prática da corrida que vem dando frutos. Foi ele quem moldou Bolt, por exemplo.

O atletismo faz parte do currículo escolar e, anualmente, uma competição nacional reúne os melhores alunos do país. A Champs começou em 1910 e hoje reúne 200 escolas, 3 mil alunos e cerca de 30 mil torcedores a cada edição. Os atletas que se destacam ganham atenção maior e orientação para seguirem a carreira de corredor. Bolt venceu os 400 m rasos na edição de 2003 da Champs e, cinco anos depois, se tornaria campeão olímpico.

A estrutura profissional da Jamaica, no entanto, está longe da das grandes potências. A maioria dos atletas treina em clubes acanhados, sem pistas oficiais. A limitação de verba é compensada com treinos eficazes, que se encaixam nas necessidades e características dos atletas jamaicanos.

Arthur Wint, primeiro campeão olímpico da Jamaica

Reprodução/Royal Air Force

Em Londres 1948, Arthur Wint tornou-se o primeiro herói olímpico jamaicano ao conquistar a medalha de ouro nos 400 metros rasos. Ele conseguiu também a prata nos 800 metros rasos. Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Wint serviu como aviador pela Royal Air Force, a força aérea do Reino Unido. Em Helsinque 1952 seria novamente prata nos 800 m e ainda ouro no revezamento 4 x 400 m rasos.

Quênia

Queniano David Rudisha correndo na terra

Divulgação/Adidas

David Rudisha, campeão olímpico e recordista mundial dos 800 m rasos

O sucesso queniano nas provas de longa distância também intriga o mundo. Em pouco mais de 50 anos, o país ganhou 79 medalhas olímpicas – o oitavo que mais atletas colocou no pódio na modalidade. E a explicação para isso passa bem longa de lendas como a que diz que os africanos fugiam de animais selvagens e, por isso, aprenderam a correr.

O país do sudeste africano tem 44 milhões de habitantes e 583 mil km², quase o mesmo tamanho de Minas Gerais. Mas a corrida não está no dia a dia de todos seus moradores. Os principais atletas do Quênia têm uma origem comum, a tribo Kalenjin, que representa cerca de 12% da população e 80% dos corredores. Eles se concentram principalmente numa região chamada Vale do Rift, 2 mil metros acima do nível do mar – a cidade de São Paulo, para efeito de comparação, fica a 760 metros. Em cidades como Iten e Eldoret vivem cerca de 5 milhões de Kalenjins.

Cerca de 80% dos corredores do Quênia são originários da mesma tribo, chamada Kalenjin

Antes, achava-se que o segredo do sucesso estava na altitude, mas testes mostraram que os quenianos têm o mesmo fôlego que atletas de outras partes do mundo. A explicação mais aceita hoje é a de que o formato do corpo das integrantes da tribo ajuda na corrida. Eles têm pernas longas e canelas finas, que pesam menos durante a corrida e os ajudam a economizar energia no movimento. Pernas mais pesadas, principalmente na porção mais próxima do chão, demandam mais energia para serem movimentadas.

Como no caso da Jamaica, a genética não cria atletas sozinha. O Quênia também incentiva grandes eventos que envolvem milhares de atletas de todas as idades. O país é pouco desenvolvido e quase metade da população vive na linha de pobreza ou abaixo dela. Tornar-se atleta é a chance de mudar de vida, e isso é um dos motivos que levam corredores de todas as idades a procurarem as competições.

Outro segredo dos quenianos são os treinos. Todos os dias, desde antes de o sol nascer, é possível ver no Vale do Rift dezenas, centenas de atletas correndo. A partir dos anos 1990, foram desenvolvidos métodos de treinamento para corridas de longa distância. Naquela época, os quenianos eram bons de provas de pista longas, mas poucos conseguiam correr a maratona (42,195 km) em nível internacional. Hoje, dos 100 mais rápidos maratonistas do mundo, 59 são quenianos.

Kip Keino de sombreiro na volta ao Quênia

Arquivo/Life

Kipchoge Hezekieh “Kip” Keino foi recebido com festa em Nairóbi, no Quênia, naquele dia de 1968. Desembarcou de sombreiro, vindo da Cidade do México, e trazia as medalhas conquistadas nos Jogos Olímpicos – ouro nos 1.500 metros e prata nos 5.000 metros. É até hoje o maior medalhista do país, com quatro pódios – em 1972, faturaria ainda prata nos 1.500 metros e ouro nos 3.000 metros com obstáculos.

Genética, geografia e treino, muito treino. É assim que Quênia e Jamaica produzem corredores campeões. Os dois países souberam aproveitar características únicas dadas pela natureza e criar um sistema de detecção e aprimoramento de talentos eficiente. Dificilmente serão potências em outras modalidades – mesmo no atletismo, não dá para imaginar um Usain Bolt maratonista ou um queniano velocista. Mas continuarão a investir naquilo que têm de melhor e ouvir seus hinos com frequência.

​Mariana Lajolo

Especial para o Bikpek.

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