Pódio dos 400 metros com barreiras em Helsinque 1952

Arquivo/COI

O americano Charlie Moore (ouro) cumprimenta o soviético Yuri Lituyev (prata), no pódio dos 400 m com barreira em Helsinque 1952. O neozelandês John Holland terminou com a medalha de bronze

Não tem jeito: a cada edição dos Jogos Olímpicos, além de acompanhar atentamente cada uma das competições que compõe o programa esportivo, uma das maiores curiosidades de torcedores, jornalistas e até mesmo dos atletas é ver a evolução diária do quadro de medalhas daquela Olimpíada.

Publicado por todos os jornais e portais de internet, além de exibidos à exaustão pelos canais de TV, a classificação dos pódios conquistados por cada país é a forma reconhecida mundialmente como ideal para avaliar o desempenho de cada nação em uma determinada edição olímpica. O que acaba variando um pouco é a classificação feita a partir da contagem de número de medalhas de ouro ou pelo total de conquistas.

Só tem um único detalhe importante: oficialmente, o COI (Comitê Olímpico Internacional) não reconhece a existência de qualquer tipo de classificação entre países nos Jogos Olímpicos. O motivo está na própria Carta Olímpica, documento composto por cinco capítulos e 61 artigos, que serve para administração dos Jogos.

A Carta Olímpica tem como seus princípios estabelecer valores e princípios do Olimpismo; servir como código do COI; além de definir direitos de obrigações do próprio Comitê Olímpico Internacional, federações internacionais, comitês olímpicos nacionais e comitê organizador de cada edição dos Jogos. E o artigo 6 da Carta Olímpica é bem claro: “Os Jogos Olímpicos são uma competição entre atletas em eventos individuais ou coletivos, e não uma competição entre países.”

Mas poucos se recordam que foi a partir de uma rivalidade política que esta história passou a mudar e o quadro de medalhas começou a encontrar seu lugar nas Olimpíadas. O grande motivador acabou sendo a guerra fria entre a então União Soviética e os Estados Unidos, que se tiveram como palco do primeiro “confronto esportivo” olímpico os Jogos de Helsinque, na Finlândia, realizados em 1952.

Era a estreia dos soviéticos nas Olimpíadas e eles logo trataram de fazer as coisas ao seu modo. “A União Soviética foi aos Jogos e se hospedou em uma base naval soviética em Otaniemi, juntamente com húngaros, búlgaros e checos. Isso porque havia um temor de alguma represália já que anos antes a URSS invadira a Finlândia, ferindo o orgulho dos finlandeses”, explica a professora da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisadora Katia Rubio, autora do livro “Atletas Olímpicos Brasileiros” e uma das principais autoridades a respeito do Movimento Olímpico no Brasil.

Foto de Joseph Stalin na vila olímpica soviética em 1952

Arquivo/Life

Na vila olímpica soviética em 1952, uma parede era enfeitada com uma foto do ditador Joseph Stalin

Foi nesta espécie de quartel-general que os soviéticos tiveram a ideia de criar uma forma de tornar evidente sua superioridade em relação aos americanos. “Nessa vila olímpica particular, além das bandeiras da União Soviética havia grandes estandartes com foto de Stalin e um painel, onde diariamente eram computados os resultados dos soviéticos (que estavam certos que teriam mais medalhas que os americanos) e do outro o resultado dos americanos”, conta Katia. Mas nem tudo saiu conforme o planejado. “Quando os russos perceberam que ficariam atrás, resolveram desmontar o painel”, completa.

Contagem de pontos?

A partir da iniciativa soviética, os jornais do mundo todo também começaram a fazer suas próprias contagens de medalhas nas edições seguintes dos Jogos, ignorando o que dizia a própria Carta Olímpica. Mas em 1952 havia quem classificasse os resultados obtidos nas Olimpíadas de outra forma. Segundo Katia Rubio, outro pesquisador olímpico, o jornalista Maurício Cardoso apontou para a existência de uma contagem por pontos olímpica.

“Diz o Maurício Cardoso que a contagem era proibida pelo COI, mas mesmo assim todo mundo fazia essa conta. E os pontos eram contados até o sexto lugar. Então a coisa ficava mais ou menos assim: 1º – 10 pontos; 2º – 5 pontos; 3º – 4 pontos; 4º – 3 pontos; 5º – 2 pontos; e 6º – 1 ponto”, detalha a pesquisadora.

Porém, a iniciativa irritou o americano Avery Brundage, que foi presidente do COI entre 1952 e 1972. Segundo Katia, o dirigente, como que prevendo a polarização entre americanos e soviéticos, criticou as iniciativas de classificação olímpicas. “Se isso se transformar numa gigantesca disputa entre duas grandes nações rica de talentos e recursos, o espírito olímpico será destruído”, afirmou na época. A bronca de nada adiantou, mas o fato é que depois de 1956, em Melbourne, ninguém mais pensou em fazer classificação por pontos.

Atualmente aceito de forma velada pelo COI e adotado em todo o mundo, o quadro de medalhas, em seu formato atual, com todos os seus problemas e distorções, ainda é a melhor forma de apurar o desempenho dos países nos Jogos Olímpicos.

Pôster soviético promovendo a rivalidade com os americanos

Reprodução

"Todos os recordes mundiais serão nossos". O pôster criado pelos soviéticos já dava uma amostra de como seria a rivalidade com os americanos - na imagem, um atleta dos EUA chega em segundo lugar
Marcelo Laguna

Marcelo Laguna

Editor

Marcelo Laguna é jornalista especializado em esportes e cobre Olimpíadas desde 1984 - foi como enviado especial em Atlanta 1996, Sydney 2000, Londres 2012 e Rio 2016. É um dos cofundadores do Bikpek e crê que um dia o Brasil deixará de ter uma monocultura esportiva.

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