“Que jogo de sinuca é esse que deu tão errado?”

A pergunta era feita pelo humorista Fernando Caruso em um de seus shows, quando falava sobre o salto com vara. Porque, aos olhos de um leigo, como é que se pode explicar uma prova que consiste em correr com uma vara nas mãos com o objetivo de superar um sarrafo como quem pula um muro?

Mas as performances acrobáticas de atletas que voam até acima de 6 metros fizeram do salto com vara uma das provas mais aguardadas em eventos de atletismo. Astros como o ucraniano Serguei Bubka e a russa Yelena Isinbayeva popularizaram a modalidade, que no Brasil produziu os campeões mundiais Fabiana Murer e Thiago Braz (júnior).

A origem do salto com vara, mistura de atletismo e ginástica com grande exigência técnica e de precisão, não é certa. Fato é que, como modalidade esportiva, surgiu na Europa e teve nos EUA sua primeira grande força. Por isso, está no programa olímpico desde a primeira edição dos Jogos na Era Moderna, em Atenas 1896. As mulheres só estrearam em Sydney 2000 – as principais competições internacionais com a participação feminina começaram pouco antes, com a estreia em campeonatos mundiais na edição de Sevilha, em 1999.

Japonês Shuhei Nishida compete no salto com vara nos Jogos de 1932

Arquivo/Life

Japonês Shuhei Nishida ficou com a prata nos Jogos Olímpicos de Los Angeles 1932 ao saltar 4,30 m

A origem

Por causa de sua simplicidade de uso, além da disponibilidade, a vara foi uma das primeiras ferramentas utilizadas pelo ser humano. Os primeiros registros sobre saltos com vara mostram que o objeto foi utilizado em várias partes do mundo, com uma adaptação diante de diferentes objetivos. Por isso, é difícil precisar a origem da prova.

Na Grécia Antiga, um tipo de salto com vara ficou registrado na literatura e em pinturas: era realizado sobre cavalos, um tipo de competição esportiva ou exibição acrobática. Não há registros, porém, de que tenha sido realizado nos Jogos Olímpicos da antiguidade. Alguns autores também relacionam o salto com vara com fins militares, para superar obstáculos naturais, como rios. e como forma de defesa contra ataques de animais.

Os celtas também usaram o salto com vara na antiguidade, em seus Jogos Tailteanos, competição esportiva que foi interrompida por causa da invasão normanda. Há registros de que a prova era uma das cinco competições realizadas, e tinha como objetivo superar uma distância, não uma altura. Alguns historiadores, porém, acreditam que o uso definitivo do salto com vara como esporte aconteceu nos pântanos da Inglaterra, da Escócia e da Holanda. Foram os ingleses que fizeram a primeira menção ao uso de varas de bambu – a recomendação estava na “British Rural Sports”, em 1855.

Praticada por gregos, celtas, ingleses e holandeses, a prova teve seu berço esportivo provavelmente na Alemanha, ligada ao surgimento da ginástica

Mas é razoável afirmar que foi na Alemanha que o salto com vara teve seu berço enquanto evento esportivo. A prova esteve ligada ao surgimento da ginástica – e é de lá que pode-se afirmar com mais segurança que a prova, como prática esportiva, efetivamente nasceu. O educador físico Johann Christoph Friederich GutsMuths é considerado, por muitos, como o “pai” da ginástica moderna e, também, do salto com vara.

Em seu livro “Gymnastik für die Jugend” (Ginástica para a Juventude), de 1793, GutsMuths dedica uma seção ao salto com vara como uma atividade recreativa. Foi ele quem organizou as primeiras provas de salto com vara no início do século 19, em Schepfental. Não é uma coincidência, portanto, que muitos atletas tenham praticado ginástica antes do atletismo – é o caso da russa Yelena Isinbayeva e da brasileira Fabiana Murer, ambas campeãs mundiais. Os esportes são, de alguma forma, irmãos.

A modalidade chegou ao continente americano junto com os imigrantes europeus.

Fabiana Murer disputa prova de salto com vara

Jonne Roriz/Exemplus/COB

A brasileira Fabiana Murer, campeã mundial de salto com vara indoor e ao ar livre

Como funciona

O objetivo da prova é simples: vence quem superar a maior altura ultrapassando uma barreira (o sarrafo, que tem 4,50 m) com a ajuda. A pista, um corredor, deve ter no mínimo 45 m. No fim dela está enterrada, no nível do piso, uma caixa de apoio, onde a vara será encaixada. Tem 1 m de comprimento, com largura de 60 cm na parte frontal e afunila para 15 cm no fundo.

A vara pode ser feita de vários materiais, ter comprimentos e diâmetros diversos, flexibilidade e peso também variáveis. É um dos implementos menos regulados do atletismo – ao contrário, por exemplo, do peso, martelo e do dardo, que têm medidas precisas e são fornecidos pela organização. No salto com vara, o atleta é quem decide como será seu equipamento e também é o responsável por seu uso e transporte.

O atleta pode revestir a vara com duas voltas de fita adesiva, de espessura uniforme, para que a superfície fique sempre lisa. Para fixar a pegada, é comum o uso de uma cola – por isso, muitas vezes, as mãos dos atletas ficam pretas. A execução da prova, porém, não acompanha a simplicidade de seu objetivo.

O salto com vara pode ser dividido em quatro fases: corrida de aproximação, impulsão, transposição e queda. Na corrida de aproximação, o saltador começa a corrida parado, segurando a vara verticalmente, na altura do peito, com as duas mãos em pontos escolhidos por ele.

É necessário ter grande coordenação e ritmo para superar a distância da corrida, de modo que a vara, inicialmente erguida, terá de ser abaixada lentamente até ser cravada no encaixe. E tudo isso em aceleração. O vento também é um adversário a ser enfrentado, especialmente se for lateral, trazendo mais um desafio para manter a vara centralizada.

Uma vez com a vara no encaixe, começa a fase de impulsão, ou takeoff. É quando o atleta transfere a energia acumulada da corrida para a vara, que vai ser deformada e vai jogá-lo para cima. O saltador estende as pernas para cima para superar o sarrafo, em um movimento de pêndulo. É quando acontece a transposição.

É importante largar a vara no momento exato. Mesmo que o atleta ultrapasse o sarrafo, se a vara derrubá-lo, a tentativa será inválida. O saltador também não pode mudar a posição das mãos na vara uma vez que ela já tenha chegado ao encaixe. Aliás, se o atleta cravar a vara no encaixe, a tentativa já terá sido realizada – se ele não completar o salto, terá desperdiçado uma chance. Por fim, a queda será com o atleta de costas para o colchão.

Foi no século 20 que o Brasil passou a ter alguma tradição no salto com vara, principalmente pelo desempenho de Fabiana Murer, campeã mundial

A prova começa em uma altura pré-determinada, definida pelos organizadores da competição. Também é definido previamente a sequência de subida do sarrafo – se de 3 em 3 cm, de 5 em 5 cm. Uma vez sozinho na prova, o campeão não precisa mais seguir essa sequência. Pode subir a barra para a altura que quiser – é o que acontece, por exemplo, nas tentativas de quebra de recorde mundial.

Todos os competidores têm três tentativas por altura. Mas os atletas podem escolher “passar” sua chance e avançar para uma altura maior mesmo que não tenha conseguido superar a altura corrente na prova – essa é uma estratégia de prova, utilizada quando um saltador está em desvantagem no desempate ou quer poupar energia em uma competição difícil e prolongada. Três falhas seguidas com o sarrafo na mesma altura, ou na combinação de alturas, eliminam o competidor.

Se dois ou mais atletas estiverem empatados na mesma altura, o campeão será aquele que menos vezes falhou naquela altura. Se o empate persistir, será o vencedor quem menos errou durante toda a competição.

A russa Yelena Isinbaieva salta 5,06 m e quebra o recorde mundial em 2009, na Suíça.

Amanda Romanelli

Especial para o Bikpek.

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