Instituição Correcional Federal Ray Brook

Departamento de Justiça dos EUA

A Instituição Correcional Federal Ray Brook, usada como vila olímpica em 1980: pouco conforto

Na chegada ao Rio, a delegação da Austrália fez críticas a problemas encontrados na vila olímpica, como fiação aparente, sujeira e vazamentos. Italianos afirmam que pretendem fazer pequenas obras por conta própria. Queixas também vieram de EUA, Holanda e México. Mas reclamações sobre as instalações para os atletas não são exatamente uma novidade. E possivelmente as maiores aconteceram em 1980, nos Jogos Olímpicos de inverno de Lake Placid.

O evento disputado no estado americano de Nova York tinha instalações pequenas e desconfortáveis. O destino da vila olímpica ajuda a entender o descontentamento dos atletas que disputaram a competição: as acomodações foram transformadas em um presídio, a Instituição Correcional Federal Ray Brook. Durante os Jogos, se hospedaram no complexo de 11 prédios cerca de 1,5 mil pessoas.

Um dos quartos da Vila Olímpica erguida no bairro da Barra da Tijuca, no Rio

Gabriel Heusi/Brasil 2016

Um dos quartos da Vila Olímpica erguida no bairro da Barra da Tijuca, no Rio. Complexo tem 31 edifícios

“A vila é pior do que as de todas as outras edições”, disse Yuri Sych, porta-voz da delegação da União Soviética, ao chegar a Lake Placid. A cidade recebia os Jogos pela segunda vez, 48 anos depois da primeira. O trauma que a experiência deixou nos atletas não foi superado quase quatro décadas depois. “Você cresce sonhando em participar de uma Olimpíada, vê pela televisão, treina duro, joga e quando você vai competir no principal palco do esporte, a vila é uma prisão”, lembrou em 2015 o russo Viacheslav Fetisov, ex-jogador da seleção soviética de hóquei sobre gelo.

A sufocante vila olímpica de Lake Placid tinha uma razão para ser assim: oito anos depois, o massacre de Munique ainda era uma lembrança viva e dolorida na memória do mundo. Nos Jogos de 1972, guerrilheiros da organização palestina Setembro Negro chacinaram 11 atletas israelenses e um policial alemão depois de um sequestro na vila. Autoridades americanas, preocupadas com um novo atentado, decidiram fazer uma espécie de “vila olímpica de segurança máxima”.

“O temor de um novo atentado como aconteceu em Munique era real. Havia muita pressão, eles [o governo] queriam garantir que nada de ruim acontecesse”, conta Jim Rogers, membro do comitê organizador dos Jogos de Lake Placid e historiador olímpico.

Atletas disputam partida de bilhar no salão de jogos da Vila Olímpica de Lake Placid

LPOM

Atletas disputam partida de bilhar no salão de jogos da Vila Olímpica de Lake Placid, em 1980

Passados 36 anos dos Jogos Olímpicos, os “hóspedes” do que um dia foi a Vila Olímpica seguem insatisfeitos. Mas, hoje, são os presos que reclamam. O Escritório de Prisões do Departamento de Justiça dos Estados Unidos recebeu com alguma frequência nos últimos anos reclamações de violações na Ray Brook. Várias delas são relacionadas ao aperto ao qual são submetidos os 870 internos. Cada cela é um cubículo com dois metros de largura por quatro de comprimento, incluindo a cama e instalações sanitárias.

O tamanho dos quartos, por enquanto, ainda não foi uma queixa dos atletas que chegaram ao Rio. E é certo que o complexo na Barra da Tijuca não vai ser transformado em presídio depois dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos (colaborou José Antonio Lima).

Rodrigo Borges

Rodrigo Borges

Editor

Jornalista desde 1997, com passagens por Lance!, Destak e ESPN. Mora desde 2015 em Londres, onde trabalha como freelancer para diversas publicações brasileiras, função que já exerceu também em Nova York. É um dos cofundadores do Bikpek.

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